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segunda-feira, 11 de março de 2019

Relato da esposa do cineasta brasileiro


Relato da esposa do cineasta brasileiro, Fabio Barreto enviado ao Pres. Ikeda                             

Me tornei budista ha três anos. De lá para cá, tenho tido a oportunidade de viver, pela primeira vez na minha vida, com base numa religião, onde pratico todos os dias e não apenas quando me convinha. Essa rotina que criei com o Budismo me retirou de uma profunda dor, onde a cada dia consigo renovar minha fé e olhar de uma forma diferente para o mundo... mesmo que seja com um único grão a cada instante. Foi assim que meu coração recomeçou a bater, quando o resgatei de volta. Precisava escrever essa carta de profunda gratidão e respeito ao senhor.
Tenho 38 anos, sou mãe do João de 10 anos e sou casada com o cineasta Fabio Barreto. Há 6 anos e meio, Fabio entrou em coma, após sofrer um grave acidente de carro, onde teve traumatismo craniano. Ele permanece em coma ou estado vegetativo até hoje.
Quando conheci o Budismo, estávamos 3 anos em coma: meu marido de fato, e EU, por ter parado de viver.
Vivi 3 anos dormindo e acordando em função de cada possível resposta dele... a minha voz, a voz dos filhos, pais, irmãos... talvez um amigo, talvez uma musica ou quem sabe um filme visto tantas vezes e que o emocionou um dia... talvez e talvez... um beijo, um abraço... Ficava ali, testando tudo isso (lia livros que sabia que ele gostava; noticiário dos jornais; gravava musicas, vozes e colocava para ele ouvir; procurava filmes e entrevistas; tudo que pudesse religar ao menos um neurônio). Fazia isso 24 horas do dia, literalmente! Porque quando não estava de corpo presente com ele, estava pesquisando sobre pessoas no mesmo estado, sobre novos tratamentos, ou estava no meu sofrer, em todos os meus pensamentos.
Minha vida profissional, a convivência com nosso filho, que na época tinha apenas 4 anos, minha rotina, privacidade em casa, vida pessoal, vida confortável, tudo congelado e transformado juntamente com aquele acidente. Minha casa se tornou um verdadeiro hospital: enfermeiros, técnicos, médicos, fonoaudiólogos, fisioterapeutas, toda uma rotina acompanhada, organizada e traçada por mim: desde o café da manhã, banho, banho de sol, noites em claro... e muito, muito medo...
Fui morrendo, literalmente, o pior tipo de morte, aquela em vida. Não tinha dignidade, não sabia mais nem ao menos quem eu era. Afastei-me do meu filho e me esvai de energia e de vida.
E foram horas de daimoku, de conselhos, e idas e vindas. Sem perceber, sai do estado de total falta de energia vital, do abandono completo do meu filho e de mim mesma, aos poucos comecei a voltar o olhar para a nossa vida. No inicio, cuidar de mim, do João, da nossa rotina me dava muita culpa. Me sentia muito mal por achar que estava abandonando o Fabio e que era injusto viver se ele não podia. Depois, comecei a entender finalmente o que falam no avião: colocar primeiro a sua mascara de oxigênio antes de ajudar alguém, pois, somente assim, você não morre e pode de fato ajudar.
Mestre, o que quero relatar aqui, são vitorias, vitorias do coração, tesouros que não são mensuráveis.
Fui convidada para ser líder do Bloco Souza Lima e, exatamente por ser jovem na pratica, fui avançando junto com eles. Nas nossas quedas e retomadas, aprendendo junto. Recebendo apoio 24h da minha líder Giovanna, que leva essa carta pessoalmente, fui construindo e entendendo o que o se relacionar com o outro que não seja apenas ligado as pessoas que são da minha família ou circulo próximo. Fui abrindo os meus olhos para um novo despertar e as cores foram se reacendendo dentro do meu coração O amor ressurgiu, a vida floresceu.
Venci minhas maiores adversidades: medo de perder, medo da morte e a insegurança de uma fé ainda circunstancial. Imersa em cólera e desesperada, não saberia falar de Paz Mundial se o meu coração não estava em Paz. Eu recuperei o amor do meu filho, que cresceu no meio disso e hoje estou praticando e posso conduzi-lo de uma forma diferente do que eu tinha conhecimento, para que ele possa ser um rapaz e um homem de valor na sociedade; Minha mãe, ao sentir e ver a minha mudança, mesmo sendo católica praticante, se converteu ao Budismo, recebeu o Gohonzon aqui no Rio de Janeiro e hoje é pioneira onde mora, no interior do Piauí.
Tive a oportunidade em novembro de 2015 de fazer o curso de treinamento CAPRI em São Paulo no CCCAMP. Ao chegar La, talvez tenha entendido, pela primeira vez, sobre o que eu estava fazendo parte. Quando enxerguei esse “Império da Paz”, onde a natureza transpira ENERGIA VITAL, senti, dentro do meu coração, a emoção, a força e a dignidade de ser Budista e de poder fazer parte dessa organização em prol da Paz, num mundo em GUERRA. Senti profundo respeito, admiração, gratidão ao senhor, nosso mestre, que, com coragem, trouxe-nos a possibilidade de empoderar-nos uns aos outros com profundo respeito à dignidade humana. A minha ligação foi entendida ali, pela enormidade e grandeza de uma vida implacável para a felicidade da humanidade. Ao mesmo tempo que me senti orgulhosa, me senti pequena pela mediocridade das minhas ações diante desse movimento e que abarca tantas vidas. Lutar com toda força para esse movimento nobre e grandioso de Paz Mundial usando a minha própria vida, olhar para o outro e vibrar veemente com as suas conquistas e descobertas! Essa vitoria foi definida no meu coração! E imbuída desse sentimento de gratidão, fui ao final do ano passado para Floriano, cidade de 70 mil habitantes onde minha mãe mora, e fizemos nossa primeira reunião Budista da cidade. Hoje coordeno o Bloco Souza Lima no Rio de Janeiro, e, mesmo a distancia, contribuo com o Bloco Floriano que esta se construindo La. Juntamente com esse movimento na organização, no inicio desse ano voltei as minhas atividades profissionais e aos poucos estou retomando ao mercado profissional.
Para se construir um grande edifício precisamos de uma base solida e segura. Meus alicerces estavam destruídos, e precisava me reerguer rever meus valores, rever minha vida, rever meus objetivos, reorganizar meu coração. E eu recuperei o fio da minha vida... que havia congelado aos 32 anos. Resgatei a força que tinha esquecido que tinha! Hoje, aos 38 anos, posso dizer que ressurgi das cinzas com sede de vida, de luz, de esperança e determinações. Tenho gratidão ao Fabio, por ele iniciei essa luta, uma luta de amor, e por ele oro todos os dias pela dignidade de sua vida e pela sua felicidade! Hoje, coloco no ouvido dele 1 hora de daimoku e gongyo todos os dias!
Finalizando, gostaria de citar um trecho de um livro budista que muito me emocionou:
Partindo de um único grão de trigo, uma enorme montanha. De um único infinitisimo instante de vida, três mil condições possíveis. De uma só frase, a energia de todo Universo. De uma única pessoa que aprende e baseia-se na arte de viver, deriva-se um mundo melhor. Ikeda escreve: 'A sociedade e até mesmo o curso da Terra muda com o estado vital das pessoas que a habitam. O poder de transformar o ambiente reside no coração humano. Uma grande revolução humana na vida de uma única pessoa pode mudar o destino da humanidade e do planeta.
Com todo meu amor, admiração e gratidão,
*Deborah Kalume*

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